DESNUTRIÇÃO NA POPULAÇÃO NEGRA: UMA ANÁLISE DA LITERATURA CIENTÍFICA INTERNACIONAL
Nome: FRANCISLAINE ALVES NOGUEIRA DE ALMEIDA
Data de publicação: 19/03/2026
Banca:
| Nome |
Papel |
|---|---|
| CAMILA POTYARA PEREIRA | Examinador Externo |
| JEANE ANDREIA FERRAZ SILVA | Examinador Interno |
| MARIA LUCIA TEIXEIRA GARCIA | Presidente |
Resumo: O aprofundamento teórico da temática da desnutrição decorrente da não garantia de acesso a alimentos na população negra é fundamental. Embora a fome global tenha diminuído, ela segue concentrada em regiões da periferia do capitalismo e incide de forma desigual sobre populações racializadas. O objetivo deste trabalho é analisar se e como os nexos entre desigualdade
racial e desnutrição decorrente da fome são abordados, no cenário internacional, em artigos científicos originais publicados em inglês, português e espanhol, refletindo sobre em que medida a desnutrição na população negra é analisada (ou não) como expressão do racismo e da questão social. Trata-se de uma revisão sistemática da literatura, de abordagem mista, realizada nas bases Scopus, Redalyc, SciELO, PubMed e Web of Science, utilizando as palavras-chave (“insegurança alimentar grave” OU fome) AND desnutrição AND (negr* OR african* OR afrodescendente), em português, inglês e espanhol. As buscas retornaram 8.560 registros, que, após remoção de duplicatas (393), triagem por título e resumo (8.167) e leitura de texto completo (372), resultaram em amostra final de 209 artigos. Os resultados indicam hegemonia do idioma inglês (98,1%) e concentração da
produção em periódicos das Ciências da Saúde (66,5%). Observa-se predominância de estudos centrados no continente africano (77,4%), com destaque para a Etiópia, e focalização recorrente em crianças menores de cinco anos (52,15%). A autoria do corpus apresenta predominância de vínculos institucionais com países africanos (58%), seguida por Europa (16,7%) e América do Norte (13,3%). Apesar da centralidade de categorias como desigualdade social, pobreza e desigualdade de gênero, a dimensão
racial apareceu em apenas nove estudos, concentrando-se sobretudo em contextos nacionais em que a desigualdade racial é intrínseca à sua formação sócio-histórica, como Brasil, África do Sul e Colômbia. Em contraste, nos estudos situados majoritariamente no continente africano, a raça tende a não ser mobilizada como categoria analítica, uma vez que a
população negra é frequentemente tomada como referência geral, sem que se explicitem diferenciações internas ou hierarquias racialmente produzidas. Ainda assim, este estudo aponta para a necessidade de adensar o debate teórico e metodológico sobre a racialização da fome e da desnutrição, de modo a explicitar o racismo como determinação estrutural das desigualdades e qualificar a análise sobre como esses processos se expressam nos diferentes contextos investigados.
